Portugal ainda não sabe como (nem onde) vai capturar, transportar e armazenar CO2

Portugal ainda não sabe como (nem onde) vai capturar, transportar e armazenar CO2

Associação Portuguesa de Cimento apresentou projecto de 2,2 mil milhões de euros para captura de CO2. Ministra do Ambiente quer primeiro adaptar a legislação e só depois “olhar para várias soluções”.

O Governo está a estudar a adaptação da legislação nacional à captura, transporte e armazenamento de carbono (CO2), e a “olhar para várias soluções” tendo em conta os impactos ambientais, segundo a ministra do Ambiente. “É um processo complexo que tem de ser bem pensado”, disse a governante que quer, antes de mais, adaptar a lei.

Maria da Graça Carvalho participou esta sexta-feira na apresentação de um estudo da indústria cimenteira sobre a matéria, afirmando depois aos jornalistas que foi criado um grupo de trabalho no ano passado que está “a olhar para várias soluções”.

O mais importante, do ponto de vista do Estado, explicou a ministra, é como se irá adaptar a legislação “para absorver a questão do transporte de CO2”.

A ministra acrescentou que esse trabalho está a ser feito, “de estudar as possibilidades” e de falar com a Comissão Europeia, no sentido de ser adoptada legislação, mas também haver financiamento.

O projecto de 2,2 mil milhões de euros

O estudo apresentado, da responsabilidade da Associação Portuguesa de Cimento (Atic), propõe o armazenamento do carbono na Bacia Lusitânica, uma área geológica na costa ocidental portuguesa, a Sul da Bacia do Porto, uma região com mais de 22 mil quilómetros quadrados e que permitiria, a longo prazo, o armazenamento de até 300 milhões de toneladas de CO2.

Para tal seria necessário construir uma rede de gasodutos que assegurasse a ligação das entidades emissoras de CO2 até ao local, com cerca de 680 quilómetros de extensão e mais 25 a 40 quilómetros no mar.

O investimento, segundo o estudo, seria de cerca de 2,2 mil milhões de euros (para transporte e armazenamento), sendo a captura de CO2 a cargo da indústria, 200 a 300 milhões de euros por fábrica.

Nas previsões do estudo em 2030 podia ser criado o primeiro poço de armazenamento e testar injecções de CO2, com o primeiro ciclo deste projecto terminado em 2055/60.

Na apresentação do estudo PT Carbon Link o vice-presidente da ATIC, Otmar Hubscher (SECIL), salientou o compromisso da indústria com a neutralidade carbónica até 2050 e pediu o apoio do Governo.

Cimentos representam 8% das emissões

Maria da Graça Carvalho reconheceu que a descarbonização é difícil no sector dos cimentos, onde ainda “há muito a fazer”, e falou do “grande desafio” do país que é o de atingir a neutralidade climática até 2045.

O sector do cimento é responsável por cerca de 8% das emissões de CO2 a nível global, de acordo com o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Trata-se de uma indústria cujas emissões são “difíceis de abater”, dado que a sua pegada carbónica não vem apenas da queima de combustíveis fósseis (que podem ser substituídos por fontes de energia alternativas). Vem também do próprio processo químico que se dá​ no interior das fábricas.

A governante avisou que a tecnologia proposta não é simples e reafirmou a importância de tudo ser feito com o envolvimento das comunidades. “A aceitação social local dos projectos é algo que nos preocupa, em todos os projectos tem de ser o ponto de partida”, afirmou.

Há, de facto, outros projectos sobre as várias possibilidades de captura e armazenamento de carbono, como, por exemplo, o trabalho internacional, chamado Strategy CCUS, que envolveu o estudo de oito regiões, de sete países (Croácia, Espanha, França, Grécia, Polónia, Portugal e Roménia), que teoricamente têm potencial para nelas se investir em soluções de captura, utilização e armazenamento de carbono (carbon capture, usage and storage, ou CCUS). Em Portugal, encontraram aquíferos salinos onde se poderá enterrar CO2.

Outra investigação mais recente do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (Ciimar) e do Centro de Ciências Marinhas e Ambientais (Mare) identificou as florestas de algas marinhas da costa Norte como uma “ferramenta natural para mitigar os efeitos das mudanças climáticas”, uma vez que são “aliadas estratégicas na captura e armazenamento de carbono”.

Sublinhando que é difícil reduzir as emissões de carbono nos sectores industriais, a ministra referiu que cerca de 80% das emissões de CO2 são “relativamente fáceis de descarbonizar, desde que haja financiamento e vontade política e das pessoas”. Para isso, é preciso usar energia renovável na electrificação, nos transportes simples e nos consumos dos edifícios.

Os outros 20%, como a indústria do vidro, da cerâmica, ou dos cimentos, são “dos mais difíceis”. O mesmo acontece com alguns modos de transporte, como a aviação e o transporte marítimo.

Processo tem de ser “bem pensado”

Nas palavras de Maria da Graça Carvalho, este processo de transporte e armazenamento de CO2 é complexo e tem de ser “bem pensado”.

“Acho que há um caminho a fazer para que estes programas sejam incluídos no financiamento europeu”, disse, reafirmando que o Governo está a olhar para a legislação mas também para os impactos ambientais. “É prematuro dizer que é aqui ou acolá”, disse, referindo-se ao local de armazenamento de CO2.

O ideal seria usar CO2 para produzir combustíveis, químicos ou materiais, porque se evita o transporte e o armazenamento, frisou a ministra, que no entanto concordou com a importância de haver a curto prazo um projecto-piloto de captura, transporte e armazenamento de CO2.

O estudo foi apresentado em Lisboa na Conferência PT Carbon Link, que juntou a indústria e especialistas nacionais e europeus. Na conferência foram apresentadas experiências internacionais sobre a questão da captura de CO2.

Fonte: publico


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