Baldios de Covas do Barroso avançam em tribunal para travar nova servidão da mina de lítio em Boticas

Baldios de Covas do Barroso avançam em tribunal para travar nova servidão da mina de lítio em Boticas

A providência cautelar apresentada pelos Baldios de Covas do Barroso pretende suspender a nova servidão administrativa. Além disso, a medida autoriza trabalhos da Savannah Resources em mais de 200 hectares de terrenos comunitários e privados em Boticas.

A Comunidade Local dos Baldios de Covas do Barroso, no concelho de Boticas, entregou esta quarta-feira uma providência cautelar no Tribunal Administrativo e Fiscal de Mirandela. O objetivo é tentar travar a segunda servidão administrativa ligada ao projeto da Mina do Barroso.

A nova servidão administrativa autoriza a empresa Savannah Resources a entrar em terrenos privados e baldios. Além disso, a medida abrange cerca de 228 hectares nas localidades de Covas do Barroso e Romaínho.

O objetivo é realizar trabalhos de sondagem e estudos geotécnicos relacionados com a exploração de lítio no distrito de Vila Real.

Em comunicado, a comunidade de baldios explica que decidiu avançar para tribunal contra a medida publicada em Diário da República a 6 de maio e assinada pelo secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Paulo Gil Barroca.

“Nós sabemos que nas cidades baldio quer dizer terreno abandonado. Mas aqui não é assim. Baldio quer dizer terra do povo, que não é nem do Estado nem privada. É da comunidade. E não está vazia. O nosso sustento depende dele”, afirmou Carlos Gonçalves, membro da direção do conselho diretivo dos baldios e comparte da comunidade.

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“É um ataque ao nosso modo de vida”

O responsável destacou ainda que muitas famílias utilizam aqueles terrenos para atividades como pastoreio, apicultura, pesca e recolha de mato. “A servidão administrativa tira-nos o acesso ao baldio. É um ataque ao nosso modo de vida”, alertou.

Segundo a comunidade local, a providência cautelar pretende impedir o avanço de uma medida considerada “desproporcionada, mal fundamentada e gravemente lesiva” dos direitos dos compartes, dos recursos naturais e do modelo agrossilvopastoril da região.

Os baldios criticam também a dimensão da área abrangida pela nova servidão. De acordo com a mesma fonte, cerca de 217 hectares dizem respeito a zonas baldias, sendo que quase metade — 102,2 hectares — ficam fora da área de concessão do projeto mineiro. A empresa prevê instalar no local 51 plataformas de sondagem e 194 poços geotécnicos.

Contestação à dimensão da servidão

No comunicado, a comunidade acusa ainda a servidão administrativa de permitir a ocupação de terrenos comunitários e privados “contra a vontade dos proprietários e compartes”. Além disso, aponta alegadas situações de pressão já verificadas durante a primeira servidão administrativa associada ao projeto.

Entre as críticas, são referidos trabalhos realizados fora da área concessionada, limitações à circulação dos moradores nos baldios e a presença de segurança privada na aldeia, situação que, segundo os habitantes, criou um ambiente de vigilância e intimidação.

Recorde-se que o Ministério do Ambiente já tinha autorizado uma primeira servidão administrativa em dezembro de 2024. Essa decisão levou proprietários locais a avançarem igualmente com uma providência cautelar, que resultou na suspensão temporária dos trabalhos de prospeção durante 15 dias, em fevereiro de 2025.

Fonte ligada aos baldios explicou ainda que a ação principal relativa a esse primeiro processo acabou por não avançar, uma vez que os trabalhos no terreno entretanto terminaram.

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Savannah diz confiar nas decisões judiciais

Contactada pela agência Lusa, a Savannah Resources afirmou ainda não ter sido notificada da nova providência cautelar. Contudo, aquando da publicação da segunda servidão administrativa, o diretor executivo da empresa, Emanuel Proença, já admitia a possibilidade de nova contestação judicial.

“É algo que temos de aceitar com serenidade e confiança, certos de que terá o mesmo resultado que todas as decisões judiciais até à data”, afirmou o responsável, referindo que já existiram oito decisões favoráveis à empresa.

O projeto da mina do Barroso recebeu em 2023 uma Declaração de Impacte Ambiental favorável condicionada emitida pela Agência Portuguesa do Ambiente. A empresa prevê arrancar com a construção da mina em 2027 e iniciar a produção de lítio em 2028.

Fonte: RR.pt

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