Do resíduo ao fertilizante_ o potencial do digestato na agricultura moderna

Do resíduo ao fertilizante: o potencial do digestato na agricultura moderna

Descubra como o biometano e o digestato podem reforçar a circularidade, reduzir a dependência de fertilizantes minerais e aumentar a resiliência agrícola.

O aumento dos preços dos fertilizantes, alimentado por uma instabilidade geopolítica que deixa a sua marca nas cadeias de abastecimento globais, torna o digestato uma alternativa doméstica, renovável e economicamente viável para a agricultura.

Na realidade, são vários os dados europeus que mostram que o digestato, o coproduto rico em nutrientes que resulta da digestão anaeróbica da matéria-prima na produção de biogás e biometano, se está a tornar um dos recursos mais estratégicos da Europa para a resiliência agrícola.

Um relatório recente, publicado pela Associação Europeia de Biogás (EBA), classifica-o como uma solução circular disponível, capaz de reforçar a segurança alimentar, apoiar os agricultores e melhorar a saúde do solo em toda a Europa, com um valor ambiental e nutricional que ultrapassa os mil milhões de euros por ano.

Além disso. até 2050, o setor europeu do biogás poderá gerar cerca de 177 milhões de toneladas de fertilizantes a partir de fluxos de resíduos ricos em nutrientes, prevendo-se que o seu potencial nutricional atinja 9,7 milhões de toneladas de azoto, 1,7 milhões de toneladas de fósforo e 0,8 milhões de toneladas de potássio.

Conclusões que vão ao encontro das prioridades identificadas no Plano de Ação para os Fertilizantes da Comissão Europeia, entre as quais:

  • Circularidade dos nutrientes;
  • Produção nacional de fertilizantes;
  • Desenvolvimento de alternativas de base biológica.

Só em 2024, as centrais de digestão anaeróbia da Europa produziram cerca de 25 milhões de toneladas de matéria seca de digestato, sendo a principal matéria-prima de origem agrícola (o estrume é responsável por cerca de 60% dos materiais de entrada).

Volumes de produção que têm o potencial de substituir mais de 16% dos fertilizantes minerais azotados utilizados na agricultura europeia, além de até 30% da procura de fósforo e 10% da procura de potássio.

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Qual o valor do digestato?

A EBA estima que o digestato já proporcione mais de mil milhões de euros por ano em valor ambiental e nutricional em toda a Europa. Um valor que provém de:

  • Redução na compra de fertilizantes minerais;
  • Melhoria da matéria orgânica do solo;
  • Menores emissões de gases com efeito de estufa;
  • Melhor circularidade dos nutrientes;
  • Menor pressão sobre os fertilizantes importados.

O que significa que, mais do que apenas um fertilizante, o digestato se tornou num ativo estratégico para a resiliência agrícola e energética da Europa, sobretudo tendo em conta que, de acordo com o EU Trade Explorer (CN 3102), as importações de fertilizantes da União Europeia (UE) ultrapassaram os quatro mil milhões de euros em 2025, com os volumes a aumentarem mais de 30% devido à redução do fornecimento russo e aos aumentos de custos relacionados com a agricultura de precisão baseada em carbonatos.

O digestato pode dar resposta a estes desafios, fornecendo uma fonte de fertilizante doméstica, renovável e não fóssil.

O impacto económico

Ademais, a gestão do digestato representa uma parcela significativa dos custos operacionais das centrais de biogás, sobretudo no que diz respeito à logística e ao armazenamento. No entanto, a utilização local do digestato pode:

  • Reduzir as importações e compras de fertilizantes minerais pelos agricultores, substituindo-as por biofertilizantes produzidos localmente;
  • Melhorar a eficiência dos nutrientes;
  • Reforçar a viabilidade económica das centrais de biogás/biometano;
  • Criar ciclos regionais de economia circular.

Vantagens que, de acordo com a EBA, podem ser fundamentais, além do impacto na agricultura, também para a rentabilidade das centrais.

Mais do que um fertilizante, uma estratégia

O digestato não é apenas um fertilizante: proporciona reciclagem de nutrientes e regeneração do solo, ao mesmo tempo que reduz a dependência de fertilizantes fósseis, através da criação de uma produção doméstica de fertilizantes, enquanto se gera energia renovável.

Ao transformar os resíduos orgânicos num produto agrícola de elevado valor, o digestato parece ser um caminho seguro para alcançar a segurança nutricional e, ao mesmo tempo, a resiliência económica, com benefícios claros para o ambiente.

Alinhado com as prioridades políticas da UE, contribui para a circularidade, o que o torna um elemento estratégico para o futuro.
Para garantir a sua utilização segura e eficaz, o digestato necessita de ser analisado para determinação das suas características e cumprimento da especificação aplicável.

FAQs

O que é o digestato produzido na produção de biometano?

O digestato é o coproduto rico em nutrientes que resulta da digestão anaeróbia da matéria-prima utilizada na produção de biogás e biometano. Contém nutrientes como azoto, fósforo e potássio, podendo ser utilizado na agricultura.

Quais são as vantagens do digestato para a agricultura?

Digestato fornece nutrientes à agricultura, reduz a necessidade de fertilizantes minerais, contribuir para a melhoria da matéria orgânica do solo e promover uma maior circularidade dos nutrientes.

O digestato pode substituir fertilizantes minerais?

O digestato tem potencial para substituir parte dos fertilizantes minerais utilizados na agricultura europeia. Segundo os dados da EBA, o potencial de substituição ultrapassa 16% dos fertilizantes azotados, podendo atingir 30% da procura de fósforo e 10% da procura de potássio.

Qual é o valor económico do digestato?

Os fertilizantes são essenciais para a produtividade e viabilidade agrícola, bem como para a segurança alimentar. Fornecem nutrientes essenciais para as plantas, tais como o azoto, fósforo e potássio. A produção europeia de alimentos depende fortemente dos fertilizantes.

Por isso a Comissão Europeia emitiu um Plano Estratégico de Ação para o Fertilizante em maio de 2026, para apoio à sua produção, nomeadamente a partir de resíduos de origem biológica, promovendo a circularidade.

Segundo a Associação Europeia de Biogás a EU importa cerca de 30% dos fertilizantes de azoto e 70% de fósforo.

O peso dos fertilizantes nas contas agrícolas é particularmente alto para os produtores. No último trimestre de 2025, os custos de fertilizantes para os agricultores da UE ainda estavam 62% acima dos níveis de 2020 (antes do pico de preço anterior).

Nos primeiros meses de 2026, os preços internos de fertilizantes na UE aumentaram significativamente, especialmente os fertilizantes azotados, impulsionados pelo comércio e fatores geopolíticos. Em abril de 2026, os preços gerais dos fertilizantes azotados na UE aumentaram ainda mais, 40% acima do nível de dezembro de 2025.

Segundo a Associação Europeia de Biogás, o digestato/biofertilizante já representa mais de mil milhões de euros por ano em valor ambiental e nutricional na Europa, através da redução da necessidade de fertilizantes minerais, da melhoria do solo e da maior circularidade dos nutrientes.

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Como pode o digestato melhorar a rentabilidade das centrais de biogás e biometano?

Por fim, a valorização local do digestato pode reduzir os custos associados à sua gestão, criar novas oportunidades de valorização e reforçar a viabilidade económica das centrais de biogás e biometano.

Fonte: Sgs


Escrito por: Cristina Campos – Engenheira Química Especialista em Energia e Transição Energética

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