Mais de 800 assinaturas contra central de biometano levam população de novo à Câmara de Alenquer (1)

Mais de 800 assinaturas contra central de biometano levam população de novo à Câmara de Alenquer

A contestação à futura central de biometano prevista para as Marés voltou esta segunda-feira à reunião da Câmara Municipal de Alenquer.

Vários moradores insistiram nos receios relacionados com a localização da unidade, os odores, a circulação de pesados e os potenciais impactos sobre a qualidade de vida.

José Manuel Catarino entregou ao executivo uma cópia do abaixo-assinado contra o projeto. Segundo afirmou, o documento reuniu mais de 800 assinaturas em apenas 12 dias.

“Não nos vamos calar com isto”, afirmou José Manuel Catarino, referindo-se às populações das Marés, Abrigada e localidades envolventes.

O morador voltou a questionar a capacidade da rede viária para suportar mais tráfego pesado e resumiu o sentimento dos subscritores da petição:

“Deixem-nos viver em paz. Não nos façam isto.”

A nova deslocação dos moradores à reunião camarária acontece depois de o município ter emitido parecer desfavorável ao projeto, no âmbito do procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental.

A Câmara apontou, entre outras questões, a ausência de garantias relativamente aos odores. Também mencionou os impactos sobre zonas habitadas e as acessibilidades.

Além disso, defendeu que sejam aprofundadas alternativas de localização que permitam maior afastamento das habitações.

O projeto da Gás da Terra representa um investimento anunciado de 20,5 milhões de euros. A proposta prevê uma unidade destinada à valorização de efluentes pecuários e de outros subprodutos agrícolas e agroindustriais.

A localização, a cerca de 500 metros da povoação das Marés, permanece no centro da contestação, que tem crescido desde a apresentação pública do projeto.

LEIA TAMBÉM: Um estudo detectou PFAS em 93% dos rios europeus analisados.

Acidentes e impacto no turismo levados à reunião

Entre os munícipes que intervieram esteve Ernesto Silva, que apresentou uma extensa listagem de acidentes que afirmou terem ocorrido em instalações deste tipo em França, incluindo explosões, incêndios, ruturas de tanques e derrames.

O morador questionou ainda a existência de um plano de emergência para as populações em caso de acidente e manifestou preocupação com o transporte de matérias-primas para a unidade e o consequente aumento da circulação de pesados.

Também Rui Palha da Silveira levou à reunião uma preocupação diretamente relacionada com a economia local. Proprietário de uma unidade de turismo em Abrigada, afirmou ter investido perto de um milhão de euros na recuperação do espaço, por onde, segundo disse, já passaram mais de três mil pessoas.

“Qual vai ser o futuro?”, questionou, receando que a proximidade da central possa comprometer o investimento realizado e a atividade turística naquela zona.

O empresário pediu ainda que a Câmara passe da manifestação de oposição à intervenção efetiva:

“A gente quer ação, ação! E que apareçam aqui com um programa de ações contra isto.”

Paulo Matias, vice-presidente da Câmara, reiterou a posição do município e garantiu solidariedade com a população.

“A Câmara está solidária e apoia toda a comunidade neste esforço”, afirmou.

Questionado sobre aquilo que poderá acontecer caso as entidades ambientais deem parecer favorável ao projeto, reconheceu não ter, naquele momento, informação jurídica suficiente para esclarecer até onde o município poderá contrariar uma eventual decisão favorável.

Ainda assim, garantiu posteriormente que “a Câmara vai lutar com todas as forças” ao lado das populações.

Além disso, os vereadores voltaram ao tema. Tiago Pedro, vereador independente, mas que, no mandato passado, integrava a maioria PS que deu luz verde, num primeiro momento, ao projeto, colocou a localização no centro da discussão.

Nesse sentido, questionou por que motivo uma infraestrutura desta natureza é projetada para uma zona rural próxima das populações, em vez de ser instalada numa área preparada para a atividade industrial.

Admitindo que a valorização dos efluentes pecuários pode representar uma solução para problemas existentes no concelho, deixou uma ressalva:

“Não podemos aceitar que para resolver um problema passemos a criar um outro problema.” O vereador saudou ainda a mobilização dos moradores e manifestou disponibilidade para assinar a petição.

LEIA TAMBÉM: Península de Setúbal tem “bastante água” mas precisa de criar redundância na captação em alta, avisa Comunidade Intermunicipal

Oposição questiona município

Carlos Sequeira, do Chega, concentrou-se no que poderá acontecer numa fase posterior do processo. Perguntou ao executivo o que fará a Câmara caso o promotor consiga ultrapassar as objeções técnicas colocadas pelas entidades envolvidas e o licenciamento possa avançar.

Além disso, criticou o facto de a oposição não ter recebido o parecer desfavorável do município. Paulo Matias garantiu que o documento seria enviado.

Francisco Guerra voltou a questionar a forma como o processo foi conduzido numa fase inicial. Defendeu que um projeto com este impacto justificaria um envolvimento mais antecipado das freguesias, associações, moradores e agentes económicos.

O vereador interrogou ainda a opção pela localização do ponto de injeção na rede de gás naquela zona. Considerou que essa decisão está na origem de parte do problema agora enfrentado pelas Marés.

Apesar do parecer desfavorável da Câmara, a população considera que o processo está longe de estar encerrado.

Com mais de 800 assinaturas recolhidas em menos de duas semanas, moradores e empresários querem agora saber até onde poderá o município ir caso o procedimento ambiental prossiga favoravelmente para o promotor.

Além disso, prometem manter a pressão contra a instalação da central naquele local.

Fonte: Valor Local

Conteúdos Relacionados