Preço da água em Portugal

O consumo de água da torneira constitui uma opção mais sustentável

Consumo Água da Torneira

A importância da água como recurso insubstituível e suporte da vida mantendo os ecossistemas e as várias atividades humanas, dá o mote a um ciclo de conferências organizado pela Academia das Ciências de Lisboa.

Em diferentes intervenções públicas referiu que a água é dos produtos alimentares mais seguros e controlados para consumo. O tema que leva à conferência é precisamente “Água – Um bem seguro”. Que radiografia faz à água para consumo humano em Portugal, nomeadamente aquela que nos chega através da torneira?

No final do passado mês de setembro, a Entidade Reguladora de Serviços de Águas e Resíduos publicou o seu relatório anual sobre o controlo da qualidade da água para consumo humano referente ao ano de 2022. Os principais resultados obtidos neste controlo vieram confirmar a manutenção do patamar de excelência na qualidade da água fornecida na torneira dos portugueses, com um resultado para o indicador “água segura” de 99%, demonstrando, uma vez mais, que a água da torneira fornecida pelos sistemas de abastecimento público em Portugal continental é segura.

Como é feito o controlo da qualidade da água?

Para além do controlo de alguns parâmetros da qualidade da água que é realizado com recurso a analisadores que efetuam a verificação dos padrões da qualidade vigentes 24 horas por dia e 365 dias por ano, as Empresas do Grupo AdP – Águas de Portugal executam Programas de Controlo da Qualidade da Água que contemplam todas as componentes dos sistemas de abastecimento sob a sua gestão, nomeadamente as origens que são utilizadas para produção de água para consumo humano e respetivos processos de tratamento realizados nas Estações de Tratamento de Água; o sistema de transporte e adução; as redes de distribuição e os locais de utilização final, ou seja, as torneiras dos consumidores. Nesse âmbito, as Empresas do Grupo AdP realizam colheitas de amostras de água para análise em mais de 6.000 pontos de colheita estratégicos e representativos das várias componentes dos seus sistemas de abastecimento. Nestes locais são colhidas anualmente cerca de 80 mil amostras de água, nas quais são realizados mais de meio milhão de análises que permitem verificar que a água fornecida pelas Empresas do Grupo AdP é segura, cumpre todos os requisitos legais em termos da qualidade da água, logo é um produto no qual podemos ter confiança. Podemos, assim, garantir que o produto que é disponibilizado nas nossas casas com um simples gesto de abrir uma torneira é dos mais seguros e controlados que nós podemos consumir.

Porque continuamos em Portugal a apresentar um consumo tão elevado de água engarrafada? Faltam campanhas de sensibilização junto da população para o consumo da água da torneira, ou a comunicação por parte das empresas engarrafadoras de água tem sido mais eficaz?

Acredito que essa realidade tem vindo a mudar nos últimos anos. Para essa mudança têm contribuído as inúmeras campanhas de sensibilização que visam reforçar a mensagem de confiança na excelente qualidade da água disponibilizada na torneira dos consumidores portugueses e o facto do consumo de água da torneira constituir uma opção mais sustentável, uma vez que contribui para a minimização dos impactos ambientais, destacando-se, por ser ecológica, económica, segura e de acesso universal.

O abastecimento de água não se prende apenas à qualidade da água fornecida, mas também à quantidade e à sua continuidade. Como avalia, em Portugal, estes dois últimos indicadores?

Para lhe responder vou referir dados públicos da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos. Atualmente, 97% de alojamentos em Portugal continental são servidos por sistemas públicos de abastecimento de água. A evolução do nosso país neste indicador, registada nas últimas décadas graças ao empenho das entidades gestoras, com o apoio de diversos governos, Regulador e fundos europeus, já foi apelidada como o “milagre português” e teve impactos muito positivos na saúde pública e no ambiente. Os níveis reduzidos da precipitação e o aumento da temperatura registados nos últimos anos têm levantado algumas limitações quantitativas, ou seja, escassez, e qualitativas que têm obrigado as entidades gestoras a um esforço adicional no sentido de garantir a constância do fornecimento em termos de quantidade e continuidade. Contudo, embora ainda existam algumas assimetrias regionais, creio que o esforço que o país fez no sentido de assegurar que as suas populações dispõem de água que cumpre as suas expectativa e requisitos de serviço, estes últimos traduzidos na quantidade e pressão, e de qualidade, é algo que nos deve orgulhar.

A AdP está entre as primeiras entidades gestoras do mundo a aderir à implementação de Planos de Segurança da Água. O que preconizam estes planos?

Para além do controlo que descrevi anteriormente, nas últimas duas décadas a maioria das Empresas do Grupo AdP implementou os seus Planos de Segurança da Água, seguindo a metodologia preconizada pela Organização Mundial da Saúde e a International Water Association. Estes Planos constituem uma poderosa ferramenta de análise, prevenção, avaliação e também gestão dos riscos associados à gestão de sistemas de abastecimento de água, contemplando todas as suas componentes, desde a área envolvente da captação até ao ponto de utilização final, ou seja, o ponto de entrega ou torneira do consumidor. Da implementação desta metodologia de gestão do risco, resultou uma melhoria significativa dos sistemas de abastecimento, tornando-os mais seguros e resilientes, dotados de ferramentas de mitigação para fazer face a eventos perigosos, cumprindo o seu objetivo primordial: a garantia do fornecimento de um produto seguro.

Portugal apresenta um considerável número de sistemas para assegurar os serviços de abastecimento de água. Esta situação dificulta a gestão técnica e económica dos sistemas no que respeita à qualidade da água para consumo?

Creio que a situação atual dos serviços de abastecimento em Portugal é muito diferente da realidade do final do século XX. Nesse âmbito, nos últimos 30 anos o Grupo AdP – Águas de Portugal tem tido uma função estruturante no setor do ambiente em Portugal com atividade nos domínios do abastecimento de água e do saneamento de águas residuais. Através das suas empresas, o Grupo AdP tem, atualmente, uma presença em todo o País, de Norte a Sul, prestando serviços aos municípios que, na sua maioria, são simultaneamente acionistas das empresas gestoras dos sistemas multimunicipais [sistemas em alta], e servindo diretamente as populações através de sistemas municipais [sistemas em baixa] de abastecimento de água e de saneamento. Na minha opinião, este papel foi essencial para a melhoria substancial que se registou na gestão técnica e económica dos sistemas, no que respeita à qualidade da água para consumo, nas últimas décadas.

Olhemos para o futuro próximo. Tem presente qual o valor do investimento necessário para manter a qualidade da água para consumo humano nos patamares atuais até ao início da próxima década? Isto, considerando o preconizado no Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais 2030.

O Plano Estratégico para o Setor de Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais 2021-30 prevê que sejam investidos cerca de 5.500 milhões de euros no setor até ao fim desta década. Este Plano define as grandes linhas gerais orientadoras para o setor da água para a próxima década e assenta no lema “Serviços de águas de excelência para todos e com contas certas!”, tendo sido definidos quatro objetivos gerais: Eficácia dos serviços, Eficiência dos serviços, Sustentabilidade dos serviços e Valorização dos serviços. A “Qualidade das águas para abastecimento e rejeitadas” constitui um dos objetivos específicos do objetivo geral “Serviços eficazes”, para o qual estão a ser definidas várias metas que visam robustecer os sistemas de abastecimento, objetivando a manutenção e melhoria da qualidade água produzida e garantir a capacidade para fazer face às grandes tendências e desafios que se colocam às entidades gestoras.

A que desafios se refere?

Entre outros, refiro-me ao aumento do uso dos recursos hídricos e potencial escassez de água devido ao crescimento populacional e económico. Mas também a proteção e valorização das massas de água, com a melhoria da qualidade e do tratamento das rejeições, bem como a sua redução. Há também a considerar a melhoria da qualidade e segurança das águas para abastecimento público, nomeadamente no que toca ao investimento no tratamento para cumprimento de novos requisitos e aumento do controlo de qualidade. Um outro desafio prende-se com a resiliência para fazer face às alterações climáticas, neste caso com a reabilitação das infraestruturas dos serviços de água, aumento da capacidade de armazenamento de água, aumento da eficiência hídrica e recurso a novas fontes alternativas; melhoria dos sistemas de drenagem de águas pluviais e melhoria do uso e ocupação do solo para redução de fenómenos de cheia. O valor dos investimentos estará dependente das metas a definir e a alcançar e constitui um desafio à capacidade de realização do setor, sendo expectável que a parcela de reabilitação das infraestruturas seja a mais relevante.

Fonte: DN.

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