Investigação portuguesa demonstra que formações geológicas profundas podem armazenar energia renovável capaz de alimentar uma cidade

Investigação portuguesa demonstra que formações geológicas profundas podem armazenar energia renovável capaz de alimentar uma cidade

Investigadores do GeoBioTec, da NOVA FCT e do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa acabam de publicar um novo estudo na revista Geoenergy, que demonstra como formações rochosas porosas em profundidade poderão constituir uma das soluções mais promissoras para o armazenamento de energia em larga escala, contribuindo para ultrapassar um dos principais desafios da transição energética: armazenar a eletricidade produzida por fontes renováveis quando a produção excede o consumo.

Trata-se do primeiro estudo integrado que combina critérios geológicos e termodinâmicos para avaliar o potencial do Armazenamento de Energia por Ar Comprimido em Meios Porosos (Compressed Air Energy Storage in Porous Media – CAES-PM). Os resultados mostram que reservatórios geológicos poderão atingir capacidades de armazenamento da ordem de 1 terawatt-hora (TWh). O volume seria suficiente para abastecer centenas de milhares de habitações.

Perante o aumento da produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, torna-se indispensável dispor de soluções capazes de armazenar energia durante dias ou meses.

Ao contrário das baterias convencionais, o armazenamento por ar comprimido utiliza o excesso de eletricidade produzido por fontes renováveis para comprimir ar atmosférico. Posteriormente, esse ar é injetado em reservatórios geológicos profundos.

Quando existe necessidade de produzir eletricidade, esse ar é libertado e utilizado para acionar turbinas. Por utilizar apenas ar atmosférico, esta tecnologia evita muitos dos riscos associados ao armazenamento subterrâneo de gases combustíveis ou tóxicos, como o hidrogénio ou dióxido de carbono.

“O estudo analisa, pela primeira vez e de forma sistemática, a influência da profundidade nas condições de armazenamento subterrâneo de energia. À medida que aumenta a profundidade, variam simultaneamente a pressão e a temperatura. Fatores que condicionam diretamente a quantidade de energia que pode ser armazenada. Assim, as rochas irão funcionar como uma gigante bateria debaixo dos nossos pés”, afirma Ricardo Pereira, Investigador do GeoBioTec da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa.

O estudo assume relevância num contexto em que os sistemas elétricos dependem cada vez mais da integração de energias renováveis intermitentes.

As tecnologias de armazenamento de longa duração são consideradas fundamentais para a redução de desperdícios de produção renovável. Para o aumento da estabilidade das redes elétricas. E para assegurar serviços críticos, como o restabelecimento da rede após falhas generalizadas (black start).

Um exemplo é o apagão que afetou Portugal e Espanha em abril de 2025.

Este trabalho salienta ainda que o sucesso desta tecnologia depende não apenas das soluções de engenharia, mas fundamentalmente de uma caracterização geológica rigorosa. A dimensão do reservatório, a porosidade, a permeabilidade, os limites de pressão e as condições geotérmicas são fatores determinantes para a viabilidade técnica e económica destes sistemas.

Além de demonstrar o elevado potencial desta tecnologia, a investigação sugere uma metodologia prática para apoiar a identificação e avaliação de reservatórios geológicos com características adequadas para futuros projetos de armazenamento subterrâneo de energia.

O artigo científico, intitulado “Impact of Depth-Dependent Geological Controls for Assessing Energy Capacity of Subsurface Compressed Air Energy Storage in Porous Media”, foi escrito por Ricardo Pereira, João Silva e Jorge Maia Alves e publicado na revista Geoenergy.

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