Uma nova abordagem tecnológica está a transformar as ETAR em unidades de valorização de recursos, aliando recuperação de nutrientes e remoção de micropoluentes para um futuro mais sustentável no setor da água.
A evolução das exigências ambientais e regulamentares tem colocado novos desafios ao setor do tratamento de águas residuais. Além disso, a necessidade de reduzir o impacto ambiental das descargas tem impulsionado o desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras. Além disso, busca-se aumentar a eficiência energética e valorizar recursos presentes nos efluentes.
Nesse contexto, surge a operação RENURE. Trata-se de um processo integrado e circular para a recuperação de nutrientes e remoção de micropoluentes de águas residuais. O projeto é promovido pela VentilAQUA e cofinanciado pelo COMPETE 2030.
O projeto propõe o desenvolvimento de um processo integrado para tratar correntes líquidas concentradas provenientes de estações de tratamento de águas residuais (ETAR). Além disso, promove simultaneamente a recuperação de nutrientes e a remoção de micropoluentes.
Dessa forma, o objetivo passa por reduzir custos operacionais. Ao mesmo tempo, busca melhorar a sustentabilidade dos sistemas de tratamento. E, ainda, apoiar o cumprimento da nova diretiva europeia relativa ao tratamento de águas residuais urbanas.
Como sublinha António Rodrigues, Diretor de I&DI da VentilAQUA:
“O projeto RENURE representa um passo decisivo na transformação das ETARs em unidades de valorização de recursos, alinhadas com os princípios da economia circular e com os desafios da nova Diretiva Europeia. Ao integrar tecnologias inovadoras para a recuperação de nutrientes e remoção de micropoluentes, estamos a contribuir para soluções mais eficientes, sustentáveis e preparadas para o futuro do setor da água.”
O desafio das escorrências concentradas
Entre os vários fluxos gerados numa ETAR, destacam-se as escorrências do digerido provenientes do processo de digestão anaeróbia. Apesar de representarem apenas cerca de 1% do caudal diário, estas correntes podem concentrar uma parte significativa da carga de azoto, fósforo e micropoluentes presente na instalação.
Devido às elevadas concentrações de poluentes, estas águas não podem ser descarregadas diretamente no meio hídrico e são habitualmente recirculadas para a entrada da ETAR, aumentando os custos energéticos e operacionais do tratamento.
O RENURE procura responder a este desafio através da integração de diferentes tecnologias avançadas que permitem tratar estas correntes de forma eficiente e sustentável.
Recuperação de nutrientes e valorização de recursos
Um dos principais focos do projeto é a recuperação de nutrientes, nomeadamente azoto e fósforo, presentes nas escorrências. A estratégia passa pela sua conversão em estruvita, um mineral que pode ser utilizado como fertilizante de libertação lenta.
Para tal, o processo combina tecnologias como a eletrorredução e a cristalização, recorrendo ao misturador estático NETmix para garantir uma mistura eficiente e favorecer a formação do mineral. O sistema inclui ainda um reator eletroquímico com elétrodos de magnésio, responsável por fornecer o reagente necessário para a formação da estruvita.
Esta abordagem permite transformar um fluxo problemático das ETAR numa fonte de valor, promovendo a economia circular e contribuindo para uma gestão mais eficiente dos recursos.
Remoção de micropoluentes e validação tecnológica
Para além da recuperação de nutrientes, o projeto aposta na remoção de micropoluentes através de processos de eletro-oxidação e ozonização. Estas tecnologias permitem degradar compostos persistentes e reduzir a presença de amónia remanescente nas escorrências tratadas.
O projeto prevê também o desenvolvimento de um eletro-ozonizador inovador baseado na eletrólise da água, capaz de produzir ozono com menor consumo energético e com potencial para gerar simultaneamente hidrogénio verde.
Após a fase de testes laboratoriais, o projeto validará o processo integrado em uma linha piloto instalada em uma ETAR gerida pelos parceiros. Além disso, a equipe avaliará o desempenho das tecnologias em condições próximas da operação real.
O financiamento do COMPETE 2030 e a colaboração entre a VentilAQUA e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto têm sido determinantes para o avanço do projeto. Como refere António Rodrigues:
“O apoio do COMPETE 2030 tem permitido avançar com o desenvolvimento e validação destas soluções em ambiente relevante, criando as condições para testar, otimizar e aproximar a tecnologia da sua aplicação prática. A colaboração entre a VentilAQUA e a FEUP tem sido igualmente determinante para combinar conhecimento científico com experiência industrial.”
Por fim, mais do que uma iniciativa tecnológica, o RENURE pretende contribuir para uma transformação sustentável no setor da água. Como conclui António Rodrigues:
“Mais do que um projeto de I&D, o RENURE é um contributo concreto para a sustentabilidade do setor e para uma gestão mais eficiente dos recursos.”
Fonte: Compete2030



