Basileia não reage a modas nem a ciclos mediáticos. Reage a riscos sistémicos. E o risco climático passou a ser entendido como material para a solvabilidade, liquidez, governação e resiliência do sistema financeiro. Por Sofia Santos, CEO da Systemic.
Nos últimos tempos, a narrativa parece estar a mudar. Fala‑se menos de alterações climáticas e mais de eventos extremos, menos de transição climática e mais de adaptação. Em alguns setores, emerge mesmo a perceção de que a importância do tema ambiental está a abrandar, diluída por crises geopolíticas, inflação persistente ou pressões sobre a competitividade económica.
No entanto, essa leitura ignora um dos sinais mais claros e estruturais do sistema económico global: o enquadramento regulatório da estabilidade financeira.
O Comité de Basileia para a Supervisão Bancária — a entidade que define os princípios fundamentais da regulação prudencial a nível mundial — integrou explicitamente o risco climático nos seus Core Principles for Effective Banking Supervision, revistos em 2024. Este passo dificilmente pode ser interpretado como simbólico. Basileia não reage a modas nem a ciclos mediáticos. Reage a riscos sistémicos.
E o risco climático passou a ser entendido como material para a solvabilidade, liquidez, governação e resiliência do sistema financeiro.
Basileia, clima e o equívoco do “abrandamento” ambiental
Ao contrário da ideia de que o clima é um “novo risco”, o Comité deixa claro que se trata, na realidade, de um amplificador de riscos já existentes. Riscos físicos e de transição afetam diretamente risco de crédito, risco operacional, risco de mercado e risco de liquidez.
Afetam horizontes temporais, pressupostos macroeconómicos e a qualidade dos ativos. Por isso, dezenas de princípios de Basileia — ainda que nem sempre rotulados como “climáticos” — passaram a exigir que bancos e supervisores integrem fatores ambientais nas suas práticas correntes de gestão de risco, planeamento de capital e governação interna.
Este movimento não é exclusivo das economias avançadas. Em África, os Bancos Centrais têm vindo, de forma crescente, a integrar o risco climático nos seus quadros de supervisão prudencial, sinalizando que esta já não é uma agenda importada, mas uma necessidade interna, alinhada com a realidade económica e social do continente.
Em regiões particularmente expostas a secas, cheias, instabilidade alimentar e choques energéticos, os riscos físicos associados ao clima têm impactos diretos sobre a qualidade do crédito, a estabilidade das instituições financeiras e a própria transmissão da política monetária. Ignorar estes fatores tornou‑se incompatível com o mandato de estabilidade financeira.
Vários Bancos Centrais africanos já avançaram com orientações de supervisão climática. Além disso, têm promovido exercícios de capacitação dos supervisores. Bem como a implementação de exigências de governação. E, em alguns casos, a realização de testes de esforço climáticos adaptados às suas economias.
Nesse contexto, mais do que simplesmente replicar modelos europeus, estas autoridades têm vindo a enquadrar o risco climático como um risco macrofinanceiro concreto. Ou seja, com relevância imediata para setores estratégicos.
Como, por exemplo, a agricultura, as infraestruturas, a energia e a habitação.
O sinal é claro: integrar o clima na supervisão não é apenas uma questão de alinhamento internacional, mas de prudência económica.
Risco climático
Este percurso evidencia que a integração do risco climático está a tornar‑se uma prática progressivamente generalizada a nível global, atravessando diferentes níveis de desenvolvimento económico e diferentes sistemas financeiros. Quando Bancos Centrais com contextos, capacidades e prioridades tão diversas convergem na leitura de que o clima é um fator crítico para a estabilidade financeira, a mensagem para empresas e instituições financeiras é inequívoca.
O risco climático não é uma tendência passageira nem um requisito reputacional. É um elemento estrutural da supervisão prudencial — em África, como no resto do mundo. Eu tenho a sorte e a honra de trabalhar com alguns destes Bancos Centrais em África, e é admirável o trabalho que realizam a importância que dão ao tema.
Neste contexto, o aparente “abrandamento” do tema ambiental é, em grande medida, um equívoco narrativo. A forma como se comunica, pode oscilar; a forma como se regula torna‑se mais exigente. As empresas que tomam decisões estratégicas com base apenas no discurso público correm o risco de ignorar onde o verdadeiro poder de transformação reside: nas regras que estruturam o acesso a capital, o custo do financiamento e a confiança do sistema financeiro.
Quando a entidade que define as regras da estabilidade financeira global incorpora explicitamente o clima nos seus princípios fundamentais, o sinal é claro. O risco climático deixou de ser um tema ambiental. Passou a ser um tema económico, financeiro e estratégico. E essa mudança é estrutural, não conjuntural.
Fonte: Jornal PT Green



